sábado, 2 de setembro de 2017

“EXTINÇÃO DA RENCA VILIPENDIA DEMOCRACIA BRASILEIRA", afirmam bispos da Repam

Comissão Episcopal para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) emitiram uma nota de repúdio ao decreto que extingue a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (RENCA).

O documento, divulgado no dia 28 de agosto, é assinado por uma coalizão formada por aproximadamente 200 bispos católicos dos países da Pan-Amazônia Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Venezuela e Suriname.

A Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) divulgou nota nesta segunda-feira, 28, na qual repudia a extinção da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), feita pelo Governo Federal na última quarta-feira. No texto, o organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) considera que o decreto baixado pelo Executivo “vilipendia a democracia brasileira, pois com o objetivo de atrair novos investimentos ao país o Governo brasileiro consultou apenas empresas interessadas em explorar a região”.
De acordo com a Repam, nenhuma consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais foi realizada, como manda o Artigo 231 da Constituição Federal de 1988 e a Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). “O Governo cede aos grandes empresários da mineração que solicitam há anos sua extinção e às pressões da bancada de parlamentares vinculados às companhias extrativas que financiam suas campanhas”, lê-se no texto.
A manifestação da Repam ainda cita como consequências à extinção da área o aumento do desmatamento; a perda irreparável da biodiversidade; a impossibilidade de garantir a proteção da floresta, das unidades de conservação e das terras indígenas; além de representar uma ameaça política para o Brasil inteiro, “impondo mais pressão sobre as terras indígenas e Unidades de Conservação”.
Leia o texto na íntegra, que é assinado pelo presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia da CNBB e também da Repam, cardeal Cláudio Hummes, e pelo Presidente da Repam-Brasil e Secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia da CNBB, dom Erwin Kräutler:

Brasília, 28 de agosto de 2017

Nota de repúdio ao Decreto Presidencial que extingue a RENCA

Ouvimos o grito da terra e o grito dos pobres
A Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), ligada ao Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe (CELAM), e no Brasil organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), juntamente com a Comissão Episcopal para a Amazônia, da CNBB, por meio de sua Presidência, unida à Igreja Católica da Pan-Amazônia e à sociedade brasileira, em especial aos povos das Terras Indígenas Waãpi e Rio Paru D’Este, vem a público repudiar o anúncio antidemocrático do Decreto Presidencial, altamente danoso, que extingue a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (RENCA) na última quarta-feira (23).
A RENCA é uma área de reserva, na Amazônia, com 46.450 km2 – tamanho do território da Dinamarca. A região engloba nove áreas protegidas, sendo três delas de proteção integral: o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, as Florestas Estaduais do Paru e do Amapá; a Reserva Biológica de Maicuru, a Estação Ecológica do Jari, a Reserva Extrativista Rio Cajari, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru e as Terras Indígenas Waiãpi e Rio Paru d`Este. A abertura da área para a exploração mineral de cobre, ouro, diamante, ferro, nióbio, entre outros, aumentará o desmatamento, a perda irreparável da biodiversidade e os impactos negativos contra os povos de toda a região.
O Decreto de extinção da RENCA vilipendia a democracia brasileira, pois com o objetivo de atrair novos investimentos ao país o Governo brasileiro consultou apenas empresas interessadas em explorar a região. Nenhuma consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais foi realizada, como manda o Artigo 231 da Constituição Federal de 1988 e a Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O Governo cede aos grandes empresários da mineração que solicitam há anos sua extinção e às pressões da bancada de parlamentares vinculados às companhias extrativas que financiam suas campanhas.
Ao contrário do que afirma o Governo em nota, ao abrir a região para o setor da mineração, não haverá como garantir proteção da floresta, das unidades de conservação e muito menos das terras indígenas – que serão diretamente atingidas de forma violenta e irreversível. Basta observar o rastro de destruição que as mineradoras brasileiras e estrangeiras têm deixado na Amazônia nas últimas décadas: desmatamento, poluição, comprometimento dos recursos hídricos pelo alto consumo de água para a mineração e sua contaminação com substâncias químicas, aumento de violência, droga e prostituição, acirramento dos conflitos pela terra, agressão descontrolada às culturas e modos de vida das comunidades indígenas e tradicionais, com grandes isenções de impostos, mas mínimos benefícios para as populações da região.
Riscos ambientais e sociais incalculáveis ameaçam o “pulmão do Planeta repleto de biodiversidade” que é a Amazônia, como nos lembra Papa Francisco na carta encíclica Laudato Si, alertando que “há propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais” (LS 38). A política não deve submeter-se à economia e aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia, pois a prioridade deverá ser sempre a vida, a dignidade da pessoa e o cuidado com a Casa Comum, a Mãe Terra. Em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, em 9 de julho de 2015, o papa Francisco não hesitou em proclamar: “digamos não a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a mãe terra”.
Na LS, o papa Francisco alerta ainda que “o drama de uma política focalizada nos resultados imediatos (…) torna necessário produzir crescimento a curto prazo” (LS 178).
Ao contrário, para ele “no debate, devem ter lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre o que desejam para si e para os seus filhos e podem ter em consideração as finalidades que transcendem o interesse econômico imediato” (LS 183).
A extinção da Renca representa uma ameaça política para o Brasil inteiro, impondo mais pressão sobre as terras indígenas e Unidades de Conservação, e abrindo espaço para que outras pautas sejam flexibilizadas, como a autorização para exploração mineral em terras indígenas, proibida pelo atual Código Mineral.
Por todos esses motivos, nos unimos às Dioceses locais do Amapá e de Santarém, aos ambientalistas e à parcela da sociedade que, por meio de manifestações nas redes sociais e de abaixo-assinados, pedem a imediata sustação do Decreto Presidencial que extingue a Reserva.
Convocamos as senhoras e os senhores parlamentares a defenderem a Amazônia, impedindo que mais mineradoras destruam um dos nossos maiores patrimônios naturais.
Não nos resignemos à degradação humana e ambiental! Unamos esforços em favor da vida dos povos que vivem no bioma amazônico. O futuro das gerações vindouras está em nossas mãos!
Que Deus nos anime no mais fundo de nossos corações e nos ilumine e confirme na busca da tão sonhada Terra Sem Males.
Dom Cláudio Cardeal Hummes
Presidente da REPAM e da Comissão Episcopal para a Amazônia

Dom Erwin Kräutler
Presidente da REPAM-Brasil e Secretário da Comissão Episcopal para a Amazônia

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

FRANCISCANISMO E EVANGELIZAÇÃO, COM FREI NILO


Foto: Igor Fernandes



O Master evangelização recebeu de braços abertos Frei Nilo Agostini, OFM, que lecionou a disciplina “Franciscanismo e Evangelização”.

Nilo é doutor em Teologia, professor do ITF e da USF, pesquisador, escritor e conferencista na área da Ética Cristã ou Teologia Moral.

Nessa Entrevista ele nos conta sobre a evangelização na América Latina, a vocação franciscana, sua experiência como redator da Revista Grande Sinal, e fala também sobre o MasterConfira!

Os Frades Menores foram protagonistas da evangelização da América Latina, dedicando-se a uma evangelização integral: o anúncio da Palavra de Deus acompanhado pelo cuidado do corpo e da vida. O senhor acha que os frades ainda se destacam no cenário latino-americano, no campo missionário?
Fica claro, como bem se expressou o documento final do Congresso Missionário OFM da América Latina, em Córdoba, de 2008, que os frades franciscanos foram “protagonistas na evangelização da América Latina, esmerando-se desde o início para que os missionários viessem bem preparados e como verdadeiros ‘apóstolos’, numa presença pacífica, o que contrastava com o projeto dos conquistadores”.
Hoje, os frades se destacam por sua presença, conscientes da necessidade de “ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS, 49), como afirma a “Carta de Aparecida” do Capítulo das Esteira ali celebrado.  Isto se faz seguindo o apelo de retomar a evangelização como “razão de ser da Ordem”, feita pelo Papa João Paulo II já no Capítulo de San Diego (1991); a partir de então, a evangelização passa a ser retomada como eixo central que define o modo próprio de ser da Ordem no mundo de hoje. Isto está muito bem expresso no documento “Encher a terra com o Evangelho de Cristo”, do ex-ministro geral Frei Hermann Schalück, texto no qual pude contribuir na redação final. Certamente, isto faz com que os frades se destaquem na missão de evangelizar, antes de tudo pelo testemunho da vida fraterna e, em seguida, pela proclamação da palavra. A fraternidade torna-se a realidade primeira e o lugar privilegiado onde vivemos a nossa forma evangélica de vida, constituindo uma “fraternidade evangelizadora” e, a partir dela, vivendo e anunciando o Evangelho no seguimento de Jesus Cristo.

Como o senhor vê a evangelização no Brasil, hoje? Quais os maiores desafios a serem enfrentados?
A Igreja Católica no Brasil distingue-se, nas últimas décadas, por “uma nova tomada de consciência da missão que Cristo confiou à Igreja: a evangelização” (XXXVII Assembleia Geral, Diretrizes da ação evangelizadora da Igreja no Brasil – 1999-2001, n. 10). Nós franciscanos, especialmente a OFM, partilhamos com a Igreja no Brasil a consciência de que a evangelização é o eixo central que perpassa toda a vida da Igreja e sua missão, como fruto do amadurecimento vivenciado nas últimas décadas, resultado de uma renovação empreendida a partir e em torno do Concílio Vaticano II. Permanecem, no entanto, dois desafios: 1. Necessitamos sempre de novo reavivar a memória da missão evangelizadora que nos foi confiada, pois como Igreja a nossa vocação não é outra senão evangelizar; 2. Com realismo, precisamos saber ler os sinais dos tempos, ou seja, as interpelações que Deus nos faz em meio aos acontecimentos e as realidades deste tempo, o que nos chama a responder à altura os desafios que se apresentam, com novas expressões e novos caminhos, sempre que necessário, para que a missão de encarnar o Evangelho tenha em conta as realidades culturais e sociais de nosso tempo.

A missão está no coração da vocação franciscana e desde o descobrimento do Brasil, os frades desempenharam um papel importante nesse setor. Hoje em dia, como os franciscanos têm marcado presença nessa área?
Os frades se fazem presente sendo testemunhas de Deus, inicialmente pela vida em fraternidade, desmascarando os “falsos deuses” desta época… É uma presença profético-crítica, atentos ao Espírito do Senhor e ao seu santo modo de operar. Este testemunho de vida, mais cedo ou mais tarde, precisa igualmente ser proclamado pela palavra para que o Evangelho de Jesus Cristo seja integralmente anunciado. Neste anúncio, os frades distinguem-se pela consciência da necessidade de uma presença inculturada, aberta à missão ad gentes, tendo claro a opção pelos pobres e o cultivo da justiça, a paz e a integridade da criação. Esmeram-se igualmente os frades no cultivo de uma atitude ecumênica e na promoção do diálogo inter-religioso, sem receio de fazerem-se presentes nos novos areópagos. Vejo também o cuidado de não soçobrar diante das estruturas para que não se perca a força profética e evangélica de nossa presença, de nosso carisma, bem como o cuidado de promover a solidariedade em meio a um crescente individualismo. Para isso, faz-se necessário que nossa formação esteja toda perpassada pela evangelização com estas características.

Qual a contribuição que o Master em Evangelização pode dar àqueles que participam do curso.
Master em Evangelização é um meio eficaz para que se aprofunde a nossa missão evangelizadora, assumindo-a realmente como eixo central de nossa vida em cada fraternidade. Importa permear nossas fraternidades locais e provinciais da consciência de que todos os irmãos, leigos ou clérigos, em igual grau de pertença e forma evangélica de vida, fazem parte da fraternidade evangelizadora. Em meio à multiplicidade de abordagens deste curso, cabe a cada participante elaborar sua síntese e partilhar com os irmãos e/ou entidades de origem a riqueza que consegue colher. Como professor deste Master, senti que este é um momento de graça! Cabe vivenciá-lo em toda a sua riqueza.

O senhor foi redator de Grande Sinal: revista de espiritualidade, editada pelo Instituto Teológico Franciscano. Poderia contar um pouco de sua experiência nesse âmbito? Há algum fato que o tenha marcado de maneira especial?
Nos 11 anos em que fui redator da Revista de Espiritualidade Grande Sinal, tornamos claro que o cuidado editorial da Revista, bem como da REB e da Sedoc, eram obra do Instituto Teológico Franciscano, cabendo à Editora Vozes a sua impressão e comercialização. Nestas revistas, cabia estampar a marca do Instituto. No tocante à Grande Sinal, tivemos o cuidado de veicular não somente a espiritualidade dos Religiosas ou da Vida Consagrada, mas a espiritualidade de todo cristão, de maneira aberta. É bom notar que em sua origem a Revista nasceu para as Religiosas, com o nome de Sponsa Christi. Nos anos de Redator, organizamos o Conselho Editorial e o Conselho Consultivo, sendo que o primeiro foi muito ativo na programação e concepção deste periódico e o segundo propiciou uma percepção da revista a partir de diferentes ambientes e visões. Foi um trabalho altamente enriquecedor.

A espiritualidade pode, de alguma forma, auxiliar no trabalho missionário?
A espiritualidade não só pode auxiliar no trabalho missionário, mas ela é imprescindível. Nós vivemos a missão de evangelizar como itinerantes contemplativos. Antes de tudo, deve nos mover uma espiritualidade da comunhão, primeiro entre os irmãos da fraternidade e, logo em seguida, na comunidade eclesial, irradiando o que brota de nossas raízes. A fraternidade torna-se uma “escola de amor”, sobretudo num contexto de individualismo exacerbado. A nossa realização passa pela vida em fraternidade. A espiritualidade que nos anima em fraternidade é, por sua vez, profundamente arraigada em Jesus Cristo e seu Evangelho, residindo aí a nossa razão de ser. Entendemos que Francisco, ao ouvir a leitura da passagem do Evangelho, onde se fala do envio dos apóstolos para a missão, tenha exclamado: “É isso que eu quero, isso que procuro, é isso que eu desejo fazer de todo o coração” (1Cel 22). As palavras do Evangelho transformam-se para Francisco em palavras do Espírito Santo, que são “espírito e vida” (cf. 2CFi 3; Adm 7,4; Test 13). Como fraternidade de menores, assumimos a vida de pobreza, escolhemos a condição dos pequenos, numa “entrega total ao Senhor” (cf. LegM, Milagres, X, 8). Cabe deixar-nos conduzir pelo Espirito Santo; Ele é o mistagogo do itinerário espiritual de cada pessoa, nos levando a beber da fonte trinitária. Para São Francisco, a Ordem só tinha um Ministro Geral, que é o Espírito Santo.

Conte-nos um pouco sobre o livro que lançou, recentemente.
Este livro leva-nos ao conhecimento e aprofundamento dos fundamentos da Moral cristã segundo a experiência percorrida e vivenciada pela Igreja Católica, sobretudo após o Concílio Vaticano II. Temos como pano de fundo o contexto de mudanças e de crise de nossos dias, bem como a chance de responder à altura aos desafios de nosso tempo. Ao buscar a riqueza que brota de nossas raízes, somos levados a partilhá-la, oferecendo-a a todos que, em meio a este tempo de mudanças, buscam iluminação, segurança, respostas para fazer face aos novos desafios. Isto se dá em meio a um diálogo a ser travado na contemporaneidade. Porém, não basta refugiar-se no passado; é necessário nos mobilizar a partir de nossa identidade, de nossa riqueza e colocarmo-nos em missão, a fim de colaborar com a humanidade, num empenho comum.
Com este livro, não temos a pretensão de esgotar o que brota de nossas raízes cristãs. Antes, cabe-nos ter fôlego, coragem e esperança, para deixar-nos surpreender pela presença de Deus que, no Seu Espírito, nos chama “a elaborar novas respostas para os problemas novos do mundo atual” (JOÃO PAULO II. Exortação apostólica Vita Consecrata, n. 73). Sabemos que “o Espírito sabe dar as respostas apropriadas mesmo às questões mais difíceis” (Ibidem, 73). Tudo está atravessado pelo desígnio de Deus e banhado por seu Amor.

*Frei Nilo Agostini, ofm

*Frade da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, Doutor em Teologia pela Universidade de Ciências Humanas de Strasbourg, França. Docente no Curso de Pós-graduação Stricto Sensu em Educação na USF (Universidade São Francisco). Reitor do ITF nos anos de 1991 a 1996.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

CORPUS CHRISTI: REFLEXÃO DO PAPA FRANCISCO

“O Senhor, teu Deus, (…) te alimentou com o maná, que tu não conhecias” (Dt 8,3).
Estas palavras de Moisés fazem referência à história de Israel, que Deus fez sair do Egito, da condição de escravidão, e por quarenta anos o guiou no deserto para a terra prometida. Uma vez estabelecido na terra, o povo eleito atingiu uma autonomia, um bem-estar, e correu o risco de esquecer as tristes vicissitudes do passado, superadas graças à intervenção de Deus e à sua infinita bondade. Então as Escrituras exortam a recordar, a fazer memória de todo o caminho feito no deserto, no tempo da penúria e do desconforto. O convite de Moisés é o de voltar ao essencial, à experiência de total dependência de Deus, quando a sobrevivência foi colocada em suas mãos, para que o homem compreendesse que “não vive apenas de pão, mas de tudo aquilo que procede da boca do Senhor” (Dt 8,3).
Além da fome material o homem leva consigo outra fome, uma fome que não pode ser saciada com comida comum. É a fome de vida, fome de amor, fome de eternidade. O sinal do maná – como toda experiência do êxodo – continha em si também esta dimensão: era figura de uma comida que sacia esta fome mais profunda que existe no homem. Jesus nos dá este alimento, assim, é Ele mesmo o pão vivo que dá vida ao mundo. Seu Corpo é verdadeira comida sob a espécie de pão; seu Sangue é verdadeira bebida sob a espécie de vinho. Não é um simples alimento com o qual sacia nossos corpos, como o maná; o Corpo de Cristo é o pão dos últimos tempos, capaz de dar vida, e vida eterna, porque a substancia deste pão é Amor.
Na Eucaristia se comunica o amor do Senhor por nós: um amor tão grande que nos nutre com Si mesmo; um amor gratuito, sempre à disposição de todos os famintos e necessitados de restaurar as próprias forças. Viver a experiência da fé significa deixar-se alimentar pelo Senhor e construir a própria existência não sobre bens materiais, mas sobre a realidade que não perece: os dons de Deus, sua Palavra e seu Corpo.
Se olharmos ao nosso redor, daremos conta de que existem tantas ofertas de alimento que não vem do Senhor e que aparentemente satisfazem mais. Alguns se nutrem com o dinheiro, outros com o sucesso e com a vaidade, outros com o poder e com o orgulho. Mas a comida que nos alimenta verdadeiramente e que nos sacia é somente aquela que nos dá o Senhor! O alimento que nos oferece o Senhor é diferente dos outros e talvez não nos pareça assim saboroso como certas iguarias que nos oferecem o mundo. Agora sonhamos com outros alimentos, como os hebreus no deserto que choravam a carne e as cebolas que comiam no Egito, mas esqueciam que aqueles alimentos eram comidos na mesa da escravidão. Eles, naqueles momentos de tentação, tinham memória, mas uma memória doente, uma memória seletiva.
Cada um de nós, hoje, pode se perguntar: e eu? Onde quero comer? Em que mesa quero me alimentar? Na mesa do Senhor? Desejo comer comidas gostosas, mas na escravidão? Qual é minha memória? Aquela do Senhor que me salva ou a do alho e das cebolas da escravidão? Com que lembrança eu satisfaço minha alma?
O Pai nos diz: “Te alimentei com o maná que tu não conhecias”. Recuperemos a memória e aprendamos a reconhecer o pão falso que ilude e corrompe, porque fruto do egoísmo, da auto-suficiência e do pecado.
Daqui a pouco, na procissão, seguiremos Jesus realmente presente na Eucaristia. A Hóstia é nosso maná, mediante o qual o Senhor nos dá a si mesmo. A Ele nos dirigimos com fé: Jesus, defende-nos das tentações do alimento mundano que nos faz escravos; purifica nossa memória, para que não se torne prisioneira da seletividade egoísta e mundana, mas seja memória viva da tua presença ao longo da história do teu povo, memória que faz “memorial” do teu gesto de amor redentor. Amém.

terça-feira, 13 de junho de 2017

SANTO ANTÔNIO E A DOAÇÃO DE SI MESMO

Não é amor a busca de si, mas a doação de si

“Hoje se fala tanto de maturidade humana como um estilo de vida, um modo de ser que faz o homem capaz de cumprir com serenidade e com satisfação a própria missão, sem perder o equilíbrio diante de dificuldades, mesmo graves, que se encontram no decorrer da vida. Entende-se que o homem é um “ser para”. Ele possui uma personalidade harmoniosa na medida em que sabe viver pelos outros e com os outros”(Dom Alberto Taveira Corrêa).

Santo Antônio: Sua vida fez-se dedicação completa, numa doação de si mesmo. Ele não brincava de religião. Ele não usava Deus como um talismã. Ele se deixava atrair por Deus e se consumia na graça de Deus, transformando-se a fim de dedicar sua vida, sem reservas, ao amor de Deus que o animava. Santo Antônio se transcendia a cada dia; era homem de superação. Mesmo com saúde frágil, ei-lo pronto, disposto a qualquer sacrifício. Exigia o melhor de si mesmo e se dispunha inteiro na doação de si para o Reino de Deus.

Para Santo Antônio, nada é demais quando nos sentimos atraídos por Deus e animados ante a proposta de Cristo. Ele fez de sua vida uma doação completa. Santo Antônio é exemplo de dedicação. “Sua própria vida era oferecida como uma oferta suave a Deus. Nele, um dos maiores milagres aconteceu; a vela, por mais que queimasse, não se consumia. Realizava-se nele uma das maiores lições que precisamos aprender: não precisamos nos economizar para Deus e para o serviço dos outros. Aqui, a lógica é diferente, isto é, quanto mais nos gastamos, mais crescemos. É o milagre da multiplicação, não de pães e peixes, mas de vidas que se dispõem a servir. Imagino o que aconteceria se cada um de nós se dedicasse a Jesus Cristo da mesma maneira e com a mesma intensidade de Antônio. Muitos poderiam intervir e acrescentar: mas era um santo. No entanto, não podemos nos esquecer de que, antes de ser santo, ele era, de fato e de verdade, um discípulo e missionário de Jesus Cristo”, numa doação total de si. (ROSSI, Luiz A. S. Nos passos de Santo Antônio. São Paulo: Paulus).

“Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16, 24).

Ele não se limitava somente às palavras. Empenhava-se, concretamente, em favor dos pobres, lutando contra as leis dos poderosos de Pádua, opondo-se aos tiranos da Itália. Mesmo com a saúde debilitada por causa de uma doença que o dificultava a ficar em pé, não recusava a nenhum pedido de ajuda, mesmo que isso lhe custasse a vida.

"Através de Santo Antônio, Nosso Senhor está convidando continuamente os cristãos a pensarem no bem do próximo, a amarem o próximo como a si mesmos e a darem uma atenção especial ao necessitado, ao pobre. O cristão celebra a própria vocação de poder imitar a dadivosidade e a generosidade de Deus criador e de Jesus Cristo, pois como diz Jesus: 'Recebestes de graça, de graça dai' (Mt 10,8). É uma graça poder dar. poder partilhar. Dar de graça, ser generoso, pensar no bem comum, no bem do próximo, promover a vida do próximo, eis o mistério revelado no símbolo do pão de Santo António. Não se dá apenas uma esmola. Podemos e devemos dar o trabalho, o tempo, a atenção, o perdão, a seriedade e a honestidade em nossa ação profissional que vale muito mais do que o dinheiro" (Frei Alberto Beckhäuser).

sábado, 3 de junho de 2017

A VIDA ANIMADA PELO ESPÍRITO SANTO

1. O Espírito em ação!
“A cada um é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum” (1Cor 12,7). “O amor de Deus se derramou em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5,5). Com estes textos, podemos traduzir as virtudes como a força de Deus, derramada pelo seu Espírito. Esta comunicação da força de Deus faz com que o ser virtuoso, que define o ser cristão, possa ser identificado como viver segundo o Espírito. Portanto, nas virtudes está em ação o dinamismo do Espírito Santo. Não cabe a nós querermos controlar a sua ação. Igualmente, não há como ficar de braços cruzados ante o seu sopro. O cristão virtuoso sente-se, portanto, impulsionado a viver como Jesus e a ir na direção que o Espírito indicar.

2. Verdade, justiça, honestidade
A verdade, a justiça e a honestidade devem sempre acompanhar nossas vidas. Precisam ser escritas no próprio coração. Na crise ética de hoje, nem sempre se vive assim. Há muita mentira, injustiça, corrupção, roubalheira e abuso de poder. Falta ética; falta moral. Encontramos pessoas que até acham que isso é normal. Quando isto acontece, é sinal de que a consciência está ficando deformada, acostumando-se com o erro, a mentira, enfim a maldade. É muito grave. O cristão, que vive a fé, busca sempre o bem e a verdade; quer um mundo justo para todos e cultiva a honestidade. Sabe que tudo isto é precioso aos olhos de Deus.

3. Cristão não vive de braços cruzados
Um cristão e uma cristã virtuosos não ficam só olhando de fora a vida acontecer; não ficam isolados. Participam! Estão presentes na família, participam da comunidade, se interessam pela sociedade. Buscam gerar vida nova, no vigor da prática. Semeiam a justiça para colher a paz. Cultivam a honestidade para superar a corrupção. São fraternos e vivem a comunidade. Sentem-se responsáveis para com suas famílias. Estendem a mão ao necessitado. Lutam por uma sociedade justa. Querem uma política que cuide do que é de todos e não vire roubalheira. Sentem que Deus nos chama a sermos seus colaboradores na construção deste mundo.

4. Ser um cristão virtuoso

O cristão virtuoso participa do combate de Deus contra as forças do mal (cf. Ef 6,10-12). Segundo nos diz São Paulo (cf. Ef 6,13-17), o cristão participa deste combate com “a armadura de Deus”, cinge-se com “o cinturão da verdade”, reveste-se com “a couraça da justiça”, sempre pronto a “anunciar a boa-nova da paz”, protegendo-se a todo tempo com “o escudo da fé”, tomando “o capacete da salvação” e empunhando “espada do espírito, que é a palavra de Deus”. Neste combate, ele é chamado a cultivar as virtudes morais (prudência, justiça, fortaleza e temperança) e a viver as virtudes teologais (fé, esperança e caridade).

sexta-feira, 19 de maio de 2017

PELA ÉTICA NA POLÍTICA - Nota da CNBB sobre o momento nacional

“O fruto da justiça é semeado na paz” (Tg 3,18) A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, por meio de sua Presidência, unida aos bispos e às comunidades de todo o país, acompanha, com espanto e indignação, as graves denúncias de corrupção política acolhidas pelo Supremo Tribunal Federal. Segundo a Constituição, Art. 37, é dever de todo servidor público, principalmente os que detêm elevadas funções, manter conduta íntegra, sob pena de não poder exercer o cargo que ocupa.
Tais denúncias exigem rigorosa apuração, obedecendo-se sempre as garantias constitucionais. Apurados os fatos, os autores dos atos ilícitos devem ser responsabilizados. A vigilância e a participação política das nossas comunidades, dos movimentos sociais e da sociedade, como um todo, muito podem contribuir para elucidação dos fatos e defesa da ética, da justiça e do bem comum. A superação da grave crise vivida no Brasil exige o resgate da ética na política que desempenha papel fundamental na sociedade democrática. Urge um novo modo de fazer política, alicerçado nos valores da honestidade e da justiça social. Lembramos a afirmação da Assembleia Geral da CNBB: “O desprezo da ética leva a uma relação promíscua entre os interesses públicos e privados, razão primeira dos escândalos da corrupção”. Recordamos também as palavras do Papa Francisco: “Na vida pública, na política, se não houver a ética, uma ética de referimento, tudo é possível e tudo se pode fazer” (Roma, maio de 2013). Além disso, é necessário que saídas para a atual crise respeitem e fortaleçam o Estado democrático de direito. Pedimos às nossas comunidades que participem responsável e pacificamente da vida política, contribuam para a realização da justiça e da paz e rezem pelo Brasil. Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, nos ajude a caminhar com esperança construindo uma nova sociedade. *Cardeal Sergio da Rocha* Arcebispo de Brasília Presidente da CNBB *Dom Murilo S. Ramos Krieger* Arcebispo de São Salvador da Bahia Vice-Presidente da CNBB *Dom Leonardo Ulrich Steiner* Bispo Auxiliar de Brasília Secretário-Geral da CNBB Brasília, 19 de maio de 2017

sexta-feira, 12 de maio de 2017

ORAÇÃO DO PAPA FRANCISCO NA CAPELINHA DAS APARIÇÕES EM FÁTIMA

Salve Rainha,
bem-aventurada Virgem de Fátima,
Senhora do Coração Imaculado,
qual refúgio e caminho que conduz até Deus!
Peregrino da Luz que das tuas mãos nos vem, dou graças a Deus Pai que,
em todo o tempo e lugar, atua na história humana;
peregrino da Paz que neste lugar anuncias, louvo a Cristo, nossa paz,
e para o mundo peço a concórdia
entre todos os povos;
peregrino da Esperança que o Espírito alenta, quero-me profeta
e mensageiro para a todos lavar os pés,
na mesma mesa que nos une.

Salve Mãe de Misericórdia,
Senhora da veste branca! Neste lugar onde há cem anos
a todos mostraste
os desígnios da misericórdia do nosso Deus, olho a tua veste de luz
e, como bispo vestido de branco,
lembro todos os que, vestidos da alvura batismal,
querem viver em Deus
e rezam os mistérios de Cristo
para alcançar a paz.

Salve, vida e doçura,
Salve, esperança nossa,
ó Virgem Peregrina, ó Rainha Universal!
No mais íntimo do teu ser, no teu Imaculado Coração, vê as alegrias do ser humano
quando peregrina para a Pátria Celeste.
No mais íntimo do teu ser, no teu Imaculado Coração,
vê as dores da família humana
que geme e chora neste vale de lágrimas.
No mais íntimo do teu ser, no teu Imaculado Coração,
adorna-nos do fulgor de todas as joias da tua coroa
e faz-nos peregrinos como peregrina foste Tu. Com o teu sorriso virginal
robustece a alegria da Igreja de Cristo.
Com o teu olhar de doçura
fortalece a esperança dos filhos de Deus.
Com as mãos orantes que elevas ao Senhor
a todos une numa só família humana.

Ó clemente, ó piedosa,
ó doce Virgem Maria,
Rainha do Rosário de Fátima!
Faz-nos seguir o exemplo dos Bem-aventurados Francisco e Jacinta,
e de todos os que se entregam
à mensagem do Evangelho.
Percorreremos, assim, todas as rotas,
seremos peregrinos de todos os caminhos, derrubaremos todos os muros
e venceremos todas as fronteiras,
saindo em direção a todas as periferias, aí revelando a justiça e a paz de Deus. Seremos, na alegria do Evangelho,
a Igreja vestida de branco,
da alvura branqueada no sangue do Cordeiro derramado ainda em todas as guerras
que destroem o mundo em que vivemos.
E assim seremos, como Tu,
imagem da coluna luminosa
que alumia os caminhos do mundo, a todos mostrando que Deus existe, que Deus está,
que Deus habita no meio do seu povo, ontem, hoje e por toda a eternidade.

(juntamente com os fiéis)
Salve, Mãe do Senhor,
Virgem Maria, Rainha do Rosário de Fátima! Bendita entre todas as mulheres,
és a imagem da Igreja vestida da luz pascal, és a honra do nosso povo,
és o triunfo sobre a marca do mal.
Profecia do Amor misericordioso do Pai,
Mestra do Anúncio da Boa-Nova do Filho,
Sinal do Fogo ardente do Espírito Santo,
ensina-nos, neste vale de alegrias e dores, as verdades eternas
que o Pai revela aos pequeninos.

Mostra-nos a força do teu manto protetor. No teu Imaculado Coração,
sê o refúgio dos pecadores
e o caminho que conduz até Deus.
Unido aos meus irmãos,
na Fé, na Esperança e no Amor, a Ti me entrego.
Unido aos meus irmãos, por Ti, a Deus me consagro,
ó Virgem do Rosário de Fátima.
E, enfim, envolvido na Luz que das tuas mãos nos vem, darei glória ao Senhor
pelos séculos dos séculos.

Amém.

Fonte: http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/nacional/fatima-2017-vaticano-divulga-oracao-que-o-papa-vai-fazer-na-capelinha-das-aparicoes/